PátriaMás companhias

Eu lembro-me, com lágrimas nos olhos, desses áureos tempos em que a televisão era puro passatempo, sem pretender educar quem quer que fosse. (…) As pessoas viam o que viam, ouviam o que ouviam- e ninguém, do outro lado da caixa, levantava um dedo para educar a manada. Culta ou inculta, bela ou grotesca, refinada ou saloia, era a manada que escolhia.(…)
Os tempos mudaram e ninguém pensa em conduzir a vida como muito bem entende. Ninguém tem direito a ser feio, grotesco, gordo, calvo, mal vestido ou simplesmente parolo. (…)
Do livro ao quadro, dos pentes ás lacas, a televisão deseja transformar as nossas vidas, fazer parte delas e impor o seu intocável bom gosto. Gente perfeita, bonita, letrada, que cite Balzac entre duas escovadelas num cabelo primorosamente arejado.(…)
(…) Ler é preciso , ler é fundamental e um povo que não lê está condenado ao abismo.
Os livros deixaram de ser escolha pessoal, gosto pessoal, interesse pessoal, curiosidade pessoal, leitura pessoal ou, em certos casos, repúdio pessoal.(…)
(…)Ainda ninguém sabe. Mas não se preocupem: eles acabarão por descobrir. E quando esse dia chegar, nós seremos, como sempre somos, detalhadamente informados. Seremos, como sempre somos, detalhadamente obrigados a ser detalhadamente assim.
João Pereira Coutinho, VIDA INDEPENDENTE 1998-2003, (O INDEPENDENTE)

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